terça-feira, 7 de setembro de 2010

Minhas Bicicletas

Minhas bicicletas


Minha primeira bicicleta era tricicleta.

Pernas tortas, o médico disse para meus pais que o triciclo seria o melhor remédio.

Deve ter dado certo, um pouco. Algum tempo depois ganhei, orgulhoso, um triciclo de rodas grossas. Tenho até hoje uma fotografia sentado, orgulhoso, de boné, sentado nessa bicicletinha...

Triciclo bom.

O desafio era subir o morro do Pedro II.

Era asfaltado. Descia a toda.

Primeiro soltava os pés, depois im braço.

O que desse.

Um dia não fiz a curva, dei uma pirueta no meio fio.

Uma vizinha disse para mãe.

Bronca.

E daí?

Voltamos, eu e a Sônia, a descer o morro que aos poucos perdeu a graça.

Uma noite de Natal ganhei uma bicicleta.

Não era byke, era bicicleta, daquelas robustas, sem marcha, freio no pé, o pneu não furava, tinha para lama e bagageiro.

Se minha bicicleta falasse.

Ela era forte e disposta que nem o dono.

Subir e descer o morro da Maternidade virou desafio.

Subir direto, aos poucos consegui.

Depois era descer com o vento no rosto.

Que maravilha.

Menos para a Lecy.

Quis nos imitar, caiu, não ficou um ]pedacinho de pele sem arranhão.

Foi uma bronca federal.

Mas a minha Erlan era fenomenal, não incomodava.

Podia andar saem medo.

Conhecia cda bairro de Blumenau. De noite ouvia o noticiário das bicicletas que tinham sido roubadas.

Elas tinham placas. O Reporter Catarinente, seu Reynaldo, não sabia.

Virou meu sogro, seria a mágica da bicicleta?

Blumenau era genial

Conhecia as ruas

Sabia onde ao meio dia existia cheiro de chucrute

As fábricas, impressionante

Na hora de troca de turno milhares de ciclistas apareciam

Senhoras de vestido comprido e suas bicicletas com telinhas para não prenderem a saia.

Senhores cansados pedalando, mas orgulhosos do trabalho que faziam

Aliá, Blumenau era diferente

Feio era não trabalhar

Pedinte, podia contar, era de fora

Todos faziam algo

Nem que fosse buraco de rosca

Terra violenta, não aceitava os fracos

O Rio Itajaí dava aulas

Até o ribeirão Garcia de vez em quando enchia, matava, como se a dizer, me respeitem

Assim vivíamos olhando o rio, as nuvens, o céu

E que nuvens

Não era qualquer uma

Sempre davam sinais de tormenta, de todas as cores e raios, ventos e pedras, até.

Gente estranha

Filhos de alemães, soldados da Primeira ou da Segunda Guerra, quem sabe das duas

Conheci até um que tinha uma perna de borracha

Havia sido radialista

E outros, e meu pai era um deles

Do litoral, Florianópolis, Tijucas, Lages, Itajaí, iam chegando, abrasileirando um ambiente germânico

Mostrando que a raça é fantasia, que a Terra é de todos

A vila ou cidade de Blumenau era um paraíso sub tropical cheia de flores e riachos, pitangas e amoras

Até carambolas a gente achava no mato

Onde nos embrenhávamos à medida que conhecíamos o caminho

E que florestas

Mais para os bairros as árvores, cheias de sabiás, eram tão altas e o mato fechado

Era fácil se perder

Felizmente sempre um riacho salvador dizia onde estava o Rio Itajaí

Blumenau cresceu

Agora tem arquivos de gente

Prédios cheios de pessoas distantes da terra, vendo televisão, andando de carros em ruas que mostram tabuletas alertando para as capivaras

Por que não os pedestres?

Blumenau ganhou gente estranha, como se nós não fôssemos, seríamos mais que os bugres?

Lá ainda tem vida

Qualquer espaço mais cuidado logo apresenta pássaros, cobras e peixes diferentes, ou melhor, nativos, daquelas épocas

Quando andando em direção ao Bom retiro

Cortando caminho eventualmente pisávamos em cima de alguma cobra ou a víamos saindo depressa para não ser machucada

Da. Frau Michle, repetindo a distinção, costurava bem

Mamãe a visitava sempre

Primeiro na Velha, depois no bom retiro

Eu e a Sônia brincávamos com o que sobrava, no chão,enquanto a mãe, como toda mulher, falava sem parar

E dos morros víamos a cidade com poucas casas

Era muito verde silenciosa

Barilhenta perto das fábricas

Ao longo da 7 de Setembro por onde caravanas de caminhões passavam levando toras de pinheiros

E minha Erlan

Paciente me esperava

Com ela ia para a aula, tremendo feito vara verde no inverno

Bagageiro cheio levando a “cesta básica” para o avô que resolveu aposentar antes do tempo

Indo ao mercado comprar, via de regra, algo diferente do que minha mãe pedira

Com ela andava

Não sabia que assim chamava atenção das mocinhas

Acabei conhecendo minha esposa assim...

E a bicicleta ficou em Blumenau, com muitas lembranças...

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