Minhas bicicletas
Minha primeira bicicleta era tricicleta.
Pernas tortas, o médico disse para meus pais que o triciclo seria o melhor remédio.
Deve ter dado certo, um pouco. Algum tempo depois ganhei, orgulhoso, um triciclo de rodas grossas. Tenho até hoje uma fotografia sentado, orgulhoso, de boné, sentado nessa bicicletinha...
Triciclo bom.
O desafio era subir o morro do Pedro II.
Era asfaltado. Descia a toda.
Primeiro soltava os pés, depois im braço.
O que desse.
Um dia não fiz a curva, dei uma pirueta no meio fio.
Uma vizinha disse para mãe.
Bronca.
E daí?
Voltamos, eu e a Sônia, a descer o morro que aos poucos perdeu a graça.
Uma noite de Natal ganhei uma bicicleta.
Não era byke, era bicicleta, daquelas robustas, sem marcha, freio no pé, o pneu não furava, tinha para lama e bagageiro.
Se minha bicicleta falasse.
Ela era forte e disposta que nem o dono.
Subir e descer o morro da Maternidade virou desafio.
Subir direto, aos poucos consegui.
Depois era descer com o vento no rosto.
Que maravilha.
Menos para a Lecy.
Quis nos imitar, caiu, não ficou um ]pedacinho de pele sem arranhão.
Foi uma bronca federal.
Mas a minha Erlan era fenomenal, não incomodava.
Podia andar saem medo.
Conhecia cda bairro de Blumenau. De noite ouvia o noticiário das bicicletas que tinham sido roubadas.
Elas tinham placas. O Reporter Catarinente, seu Reynaldo, não sabia.
Virou meu sogro, seria a mágica da bicicleta?
Blumenau era genial
Conhecia as ruas
Sabia onde ao meio dia existia cheiro de chucrute
As fábricas, impressionante
Na hora de troca de turno milhares de ciclistas apareciam
Senhoras de vestido comprido e suas bicicletas com telinhas para não prenderem a saia.
Senhores cansados pedalando, mas orgulhosos do trabalho que faziam
Aliá, Blumenau era diferente
Feio era não trabalhar
Pedinte, podia contar, era de fora
Todos faziam algo
Nem que fosse buraco de rosca
Terra violenta, não aceitava os fracos
O Rio Itajaí dava aulas
Até o ribeirão Garcia de vez em quando enchia, matava, como se a dizer, me respeitem
Assim vivíamos olhando o rio, as nuvens, o céu
E que nuvens
Não era qualquer uma
Sempre davam sinais de tormenta, de todas as cores e raios, ventos e pedras, até.
Gente estranha
Filhos de alemães, soldados da Primeira ou da Segunda Guerra, quem sabe das duas
Conheci até um que tinha uma perna de borracha
Havia sido radialista
E outros, e meu pai era um deles
Do litoral, Florianópolis, Tijucas, Lages, Itajaí, iam chegando, abrasileirando um ambiente germânico
Mostrando que a raça é fantasia, que a Terra é de todos
A vila ou cidade de Blumenau era um paraíso sub tropical cheia de flores e riachos, pitangas e amoras
Até carambolas a gente achava no mato
Onde nos embrenhávamos à medida que conhecíamos o caminho
E que florestas
Mais para os bairros as árvores, cheias de sabiás, eram tão altas e o mato fechado
Era fácil se perder
Felizmente sempre um riacho salvador dizia onde estava o Rio Itajaí
Blumenau cresceu
Agora tem arquivos de gente
Prédios cheios de pessoas distantes da terra, vendo televisão, andando de carros em ruas que mostram tabuletas alertando para as capivaras
Por que não os pedestres?
Blumenau ganhou gente estranha, como se nós não fôssemos, seríamos mais que os bugres?
Lá ainda tem vida
Qualquer espaço mais cuidado logo apresenta pássaros, cobras e peixes diferentes, ou melhor, nativos, daquelas épocas
Quando andando em direção ao Bom retiro
Cortando caminho eventualmente pisávamos em cima de alguma cobra ou a víamos saindo depressa para não ser machucada
Da. Frau Michle, repetindo a distinção, costurava bem
Mamãe a visitava sempre
Primeiro na Velha, depois no bom retiro
Eu e a Sônia brincávamos com o que sobrava, no chão,enquanto a mãe, como toda mulher, falava sem parar
E dos morros víamos a cidade com poucas casas
Era muito verde silenciosa
Barilhenta perto das fábricas
Ao longo da 7 de Setembro por onde caravanas de caminhões passavam levando toras de pinheiros
E minha Erlan
Paciente me esperava
Com ela ia para a aula, tremendo feito vara verde no inverno
Bagageiro cheio levando a “cesta básica” para o avô que resolveu aposentar antes do tempo
Indo ao mercado comprar, via de regra, algo diferente do que minha mãe pedira
Com ela andava
Não sabia que assim chamava atenção das mocinhas
Acabei conhecendo minha esposa assim...
E a bicicleta ficou em Blumenau, com muitas lembranças...
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terça-feira, 7 de setembro de 2010
Minhas Bicicletas
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relatar atividades culturais e reuniões da Academia de Letras José de Alencar - ALJA
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setembro 07, 2010
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